Por: Gazeta do Povo … Continue Reading >A escolha de Guita Soifer

Resgate da memória e do tempo é mais do que um conceito para a artista que torna presente o passado de objetos dispersos no cotidiano

Quanto era menina, a curitibana Guita Soifer, 66, manifestou – como se dizia – “pendores” para as artes. A mãe prontamente saiu à cata de uma professora – uma austríaca de poucos recursos e vasta cultura. As duas se acertaram como se fossem companheiras de colégio. Afinal, a aprendiz tinha de pequena gosto “pelas linhas tortas”. A mestra, sem cerimônia, em vez de paisagens comportadas lhe pedia que fizesse reproduções de Pisarro, Monet, Manet, assim como dos expressionistas. Detalhe: não revelava quem eram os autores. “ Tempos depois, nos livros e nos museus, eu encontrava aquelas pinturas e me assustava ao ver os ‘meus’ quadros ali”, diverte-se.

Muitos anos mais e as “linhas tortas” continuaram a marcar o percurso de Guita. Um exemplo disso acontece a partir de sábado, quando a artista vai participar de um evento muito peculiar que se repete há dez anos na cidade de Berlim. Trata-se de uma espécie de maratona de visitação que mantém os museus e espaços culturais da capital alemã abertos a noite toda. É uma oportunidade sem precedentes para os visitantes e convidados a expor. Soifer desfruta de um gostinho a mais: é a única brasileira elencada no cronograma.

Até aí nada que tire do prumo a veterana que contabiliza seis mostras internacionais – incluindo uma passagem por Nova York (1992), a janela do mundo, e outra por Bucareste, na Romênia (1994). Tanto que resolveu tudo com a desenvoltura de quem arruma as malas para descer até o litoral. Entrou há um ano e meio com uma proposta na Lei Rounaet, contou com a parceria da captadora Rita Coelho, da assessora cultural da Instituto Cultural Brasileiro na Alemanha (ICBRA), a arquiteta Maria Helena Paranhos, chamou o crítico de arte Agnaldo Farias para fazer a curadoria das obras e o texto publicado no catálogo editado por Guilherme Zamoner. A peças – uma série de 280 miniquadros e objetos instalados, além de pinturas, gravuras e livros – formam o pacote em que não faltam onipresentes tons de vermelho – uma de suas predileções – e referências sutis a sua história pessoal. Guita é judia e como qualquer pessoa de sua origem tem gravada na pele a memória do Holocausto. Eis a questão! A situação que vive agora é parecida à da garota que um dia viu os quadros que pintava nas paredes do museu – ela vai se ver em Berlim.

Em conversa com a reportagem, Soifer deixou claro que não teve nenhuma intenção de fazer uma mostra temática, levantar bandeiras ou coisa que valha. Tampouco está movida por um impulso autobiográfico. O que ocorre é que há anos encontrou seu rumo trabalhando a questão de memória. As estrelas de David e o campos de concentração são, por acréscimo, capítulos de suas referências, ainda que nunca de maneira explícita. O passado da perseguição aos judeus encontra eco naquilo que produz mas tanto quanto as recordações da Curitiba em que nasceu ou a curiosidade pela história que o vidraceiro acabou de lhe contar.

O que acontece é que a simples equação entre Guita e Berlim acaba sugerindo uma leitura muito pontual, diferente da que seria feita se estas peças fossem mostradas no Alfredo Andersen, ali na Mateus Leme, ou em Quixeramobim. Impossível não enxergar nos moldes de sapato de madeira ou nas formas de pisantes de ferro – que bem serviriam para tratar numa outra circunstância da poética das pegadas – uma face da tragédia. No encontro dos fornos crematórios, pilhas de calçados eram que restou dos mortos, uma última lembrança da identidade perdida.

Um outro trabalho – uma pequena instalação formada por uma mala velha, de onde saem rolos de fotografia quase sempre com a mesma imagem, a palma da mão – remetem com prontidão às fugas ligeiras de quem tem pouco tempo para escolher o que vai carregar. A bagagem é limitada como a linha do destino.

A presença destas e outras citações, contudo, não invalida a afirmação contínua de Soifer: ela não trata da história, mas da memória (“a nossa memória é simplesmente o que a gente é “, afirma). e com tamanha vontade que é capaz de nocautear aos desavisados. Sem exageros –a artista mergulha no DNA dos objetos e das pessoas de tal modo que acabou morando dentro das suas lembranças (leia Box). Talvez por isso confeccione tantos livros – são inúmeros, gravados em blocos de alumínio, gravados na prensa, colados… há uma sala exclusiva para confeccioná-los.

“Quando criança, já míope, eu lia com uma lanterna embaixo das cobertas para despistar minha mãe”. Não por acaso, boxes envidraçados guardam tantas armações retorcidas. “Quando a vida da pessoa está acabando nós lhe tiramos os óculos porque ela já não precisa mais fazer esforço para ver e participar do mundo”, considera. “Infelizmente vem a hora em que não poderemos mais ler”.

Se não lhe bastasse o livro como ícone maior da memória, usa também das tramelas e ferros enferrujados e dos pregos retorcidos, que existem em qualquer parede dizendo que, um dia, alguma imagem ou objeto passou por ali. Por fim, sobram neste cardápio as pinturas veladas, algumas escondidas por minúsculas e incontáveis bolinhas de chumbo, destas usada em pescaria. As peças ora escondem ora revelam as imagens, reproduzindo a dinâmica das coisas que queremos lembras mas da qual só vemos uma parte. E esta parte, no caso, é quase sempre um vermelho “ de sangue e paixão”, como a artista mesmo diz.

Em tempo – no ferro-velho particular de Guita Soifer nada sobra. “ São as coisas que me compram e não vice-versa”, explica, sobre a maneira como escolhe seus entulhos. Nenhum deles é excesso. Todos têm uma razão de ser e uma historieta a contar. Pela lógica, Berlim foi quem escolheu a curitibana. Não há por que duvidar!

O espaço

Ferro – velho e chafariz

Quando Guita Soifer convida um desavisado para ir a seu ateliê – bem, ele até pode pensar se tratar de mais uma oficina de artista, como tantas que existem por aí. Mas quando ela explica onde é, nos fundos de um estabelecimento comercial, começam as suspeitas. E não há como não imaginar as telhas de Eternit cozinhando os miolos da gente.

As telhas, diga-se de passagem, existem mesmo. E ainda por cima mal se acha a porta de entrada, camuflada numa imensa parede branca. Basta abri-la para ganhar o troféu sorvetão de tempo perdido – Xangri-lá, que sempre compensa a viagem, é mesmo um lugar que não existe. Não é oficina, não é ateliê, não é moradia, nem depósito.

O que se vê ali, sem exageros, é o corpo e o sentir de uma artista amplificados, expandidos no espaço. A dona da casa não precisa dizer mais nada: sabe-se tudo sobre ela ao pisar no chão forrado por tapetes de lona, ao cruzar o jardim com chafariz, dois imensos letreiros escritos AR, a banheira com ferros contorcidos, a casa centenária ao fundo. Nas dependências as obras instaladas. Não estão à venda. À mostra. Elas concretizam uma narrativa que corre na mente e nas veias de Soifer.

Caderno G – Gazeta do Povo – 22 de agosto de 2001

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