Meu papel nesta mostra ultrapassa nuito o tradicional texto de catálogo. Na verdade, fui convocado há um mês e pouco por Guita Soifer para, de certa forma, detonar o próprio acontecer da exposição. Explico. Há quase dois anos, Guita a vinha adiando, por saber que se trata de uma salto grande em sua carreira, e por ficar em dúvida se o salto já estava maduro, ou se convinha esperar ainda um pouco, na expectativa do próximo degrau. Esse tipo de angústia ocorre com artistas de temperamento complexo, nos quais se reúnem, em idêntica media, um processo essencialmente compulsivo e exorcista de criação e uma inclemente necessidade de refletir filosoficamente sobre as coisas do mundo e da arte.

Guita elegeu-me, pois, como uma espécie de alterego, com a função específica de ver de fora, com distanciamento, o conjunto de sua pintura recente, e decidir, junto com ela, sobre o momento de expô-la. Obviamente decidimos que era hora. Independentemente do fato de que aqui está o começo, e não o ponto de chegada de uma proposta estilística, pareceu-me que havia nesse começo força, interesse e importância para que ele ficasse publicamente registrado.

A importância reside, antes de tudo, na revolução que a presente pintura traduz no universo de valores da artista, tanto os puramente formais quanto os interiores. Durante muitos anos, a pintura de Guita se balizou pelos padrões figurativos. Sua chegad atual à abstração se dá não pela mera assimilação de modelos mas sim pela evolução intrínseca do trabalho, e por novas convicções em seu horizonte estético. (Ou antes: pelo desvelamento nítido de convicções que estão sempre latentes em todo artista). Tendo-se profissionalizado em plena idade adulta, Guita nunca viveu a necessidade dos muitos jovens, de esar a qualquer custo na moda.

Assim foi que refez por si mesma, até chegar ao presente estágio de linguaguem, o caminho que fizeram tantos outros, desde Kandinsky, Malevitch e Mondrian. É o caminho que descobre e reivindica a autonomia da pintura da qual a chamada abstração é na verdade uma concreção como consequencia do próprio exercício do pintar.

Acresce, no caso de Guita Soifer, o fato de que a ambiguidade entre as duas polaridades habituais, figuração e abstração, subjaz há vários anos em sua gravura. Seu gesto, interagindo com a margem imprevisível de alquimia inerente ao grava em metal, sempre remeteu para sugestões de vegetações ou paisagens, para algo extremamente orgânico mas que não se pode reduzir à representação figurativa.

Isto, em si, não é o importante. (Não se trata de tomar partido pró-abstração, ou considerá-la um “progresso” em relação à figura). O importante é que na gravura Guita deixou claro que a função autélica da obra de arte é, para ela, coisa assentada e praticada há muito tempo. Se bem que hesito em falar de função autotélica excluindo outras funções. Diante da arte de Guita, seja a gravura ou a pintura, e diante de seu ritmo de trabalho obsessivo e intensíssimo, evidencia-se o componente catártico de sua criação, numa profundidade existencial absoluta. Guita me faz lembrar as “ Cartas a uma Jovem Poeta”, quando Rainer Maria Rilke pergunta a seu interlocutor se escrever poesia, para ele, é tão essencial quanto respirar. Não tenho dúvida de que gravar e pintar são atos de sobrevivência para Guita, dos quais depende como de alimentar-se conviver e amar seu equilíbrio global.

Sua arte lhe serve, pois, a ela própria, na mesma medida em que serve à arte.

E por isso falei, no princípio, de revoluções também no plano interno. A pintura abstrata traz Guita Soifer um invitável alargamento de perspectivas e de riscos, os quais ela não tem mais como não assumir. Não penso, é claro, em riscos de insucesso. Ao longo de uma trajetória de vários anos, a artista já acumulou todo o “know-how”para lidar com qualquer sistema expressivo. Falo dos riscos de ter que ir longe demais, e de começar a produzir como artisticamente é desejável uma arte que ultrapassaos limites estéticos helênicos, onde o belo (no sentido de harmonia, proporção, justa medida e equilíbrio) é o ideal a atingir. Contemporaneamente, cabe ao artista explodir quaisquer limites, mergulhando na incerteza, na procura, e na ordem que, por dialética, possa mergir do caos.

A abstração de Guita permanece, por enquanto, no âmbito do belo. Isto é: trabalha em função daqueles parâmetros helênicos, e deseja provar-se competente, em termos de técnica, de composição, de cromatismo, etc. Há entretanto ujm indício de que ela está na vizinhança de mergulhos mais fundos. É que seu processo atual de obtenção de imagem passa por um mecanismo de descontrução e ocultação mais que de construção organizada.

Por motivos que poderiam ser, talvez, a busca de uma dimensão religiosa, ela começou a empregar em alguns quadros uma estrela de Davi. Mas a estrela foi sendodescaracterizada, recoberta, fragmentada. Certos quadros de limitam a conter, por exemplo, uma das pontas, obtida num decisivo gesto do pincel.

Pela descontração Guita Soifer busca, portanto, neste momento; a construção de uma nova etapa no conjunto de seu trabalho. Pode-se adivinhar que a matéria da pintura tende a se espessar, que o gesto tende a ser cada vez mais importante e radical, e que a pintura em seu todo será cada vez mais pictórica e mais absoluta. É em favor desse processo de intensificação que declaro abertamente minha torcida. Não é fácil, para artisitas dotados de inteligência especulativa e inquieta, o parto da criação. Não é fácil para Guita dar forma a seu “daimon”. Mas é fácil para todos perceber a seriedade com que ela se entrega a sua tarefa, contando com o apoio de quem, como ela, sabe quão a arte é a manifestação mais alta do espírito humano.

Olívio Tavares de Araujo

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