Este livro de Guita Soifer constitui-se numa síntese do universo de sua gravura através de uma seleção de obras recentes aparentemente dispares. O sentido e a coesão do conjunto serão apreendidos a partir da compreensão da diferença que suas experiências gráficas guardam entre si, o que se constitui em mecanismo através do qual a artista opera a linguagem.

Guita Soifer põe em marcha dispositivos visuais de constituição da presença da imagem. A artista grava na maneira tradicional, que neste livro admite em alguns casos seu alinhamento na tradição aberta por Hayter de valor o gesto, o traço, a linha. A intervenção gráfica pode ser também variada coleta e reaproveitamento de materiais como uma economia de matrizes, signos, gestos e escrituras, em que tudo isso acaba ganhando contornos específicos e, no conjunto, constituem uma imagem que é mais do que a soma das partes. A artista atua segundo um processo ambivalente de se mostrar e esconder. Guita Soifer aponta seu projeto para igualar os extremos da expressividade, em que ausência (matrizes achadas) e afirmação (o gesto de construção da imagem) se equivalem, porque a meta é ativar os mecanismos da percepção. É preciso apontar para o tempo específico de cada obra, de articulação de deus elementos.

São,pois, muitas variadas as operações pelas quais Guita Soifer põe em marcha a constituição de sua linguagem. Neste livro, as páginas gravadas abrem o leitor o universo de nexo entre as etapas da leitura. O sentido do livro, enquanto um conjunto de imagens articuladas, está em enunciar a demanda mais do que em definir o campo de respostas.

A repetição de pequenos gestos aponta para o ugar que surge da ponta do instrumento de incisão. São pequenos gestos de feitura da linha repetidos e individualizados até um ponto em que a reinteração constitui uma idéia de fatura gráfica. Terminam por se constituir num processo de territorialização. O espaço em algumas gravuras é o lugar do gesto confirmatório da individualidade. A operação é a de acumular traços e administrar sua presença, sem pretender a saturação do espaço, mas como busca do equilibrio de carga de energia na constituição daquilo que chama de presença gráfica. A imagemsubjetiva conjectural é a de um território que surge como uma pele, que se faz de cicatrizes do ato de ferir a matriz e o papel, e paisagem. No sentido bachelardiano, aqui está a vontade matérica da artista. A afirmação do sujeito não coincide com o virtuosismo técnico, mas de sua capacidade de construir mentalmente a presença gráfica como um lugar.

O verdadeiro gravador, escreveu Gaston Bachelard, começa a sua obra com um devaneio da matéria. É um trabalhador. É um artesão. Tem toda a glória da trabalhador. O pensador inglês conclui afirmando que a gravura é parte da história das lutas contra a matéria. A fenomenologia Bachelardiana apóia-se no atuar empírico em que a linguagem se funda, neste caso, na vontade matérica do sujeito como ação do Homo Artifex. É como se Guita Soifer confirmasse intensamente a assertiva através de uma grande produção gráfica. E, no entanto, a artista também colide com esta afirmação. O raciocínio da Bachelard não se ajusta totalmente, porque, como já disse, o jogo da artista é revelar e ocultar o sujeito autor.

Encontra-se em algumas gravuras a subjetividade que desvela e afirma o autor; noutras encontramos um ocultamento e, aparentemente, sua negação como se a presença da imagem fosse dada pelo mundo. Apesar da arte e da artista, enquanto detentora de uma artesania, isso ocorre quando Guita Soifer passa da fatura para a apropriação de pequeno fragmentos encontrados como matriz gráfica e conjuga estas imagens num conjunto. A incisão gráfica é um procedimento que não admite arrependimentos. O que pode parecer erro ou falta, é na verdade, escolha. Guita Soifer não nega a idéia do devaneio, antes aponta para um outro devaneio, agora no campo imagnético. E aquilo que ainda poderia existir como devaneio matérico, está deslocado da matriz para o suporte. O corpo, sobre o qual a vontade matérica atua, é, então, o papel.

Palavras soltas e letras esparsas ferem o papel entre marcas de gravação da tradição das operações com ácidos e incisões. Ocorre, em certa instância, uma atuação do acaso. Muitas palavras articulam-se como um jogo de dados. A leitura é busca incessante de um significado para essas palavras, cuja escritura parece ter um duplo movimento de ser tanto a construção quanto a dissolução do significante. A escrita adere ao espaço do suporte como um desejo de constituição do sentido, porque a comunicação não suporta a ausência do código. A tensão construida nessas gravuras é um território mental, localizado entre a opacidade e a transparência da comunicação.

Um grupo de gravuras de Guita Soifer aponta para uma tradição da modernidade, que é a incorporação de objetos encontrados na estrutura da obra de arte. Sendo assim, uma gravura de Guita Soifer pode ser o lugar de coleta de objetos. São pequenas chapas de metal recortadas que, ao serem impressas, tornam-se formas encontradas. São restos de metal como uma área fora do espaço de uso. São como campos do desperdício. Sua única possibilidade de valor se mede por seu peso como metal. No entanto ao impremi-las sobre o papel, Guita Soifer produz uma surpreendente presença hierática. A transmissão da imagem desprende essas formas de sua última fronteira: a corporeidade. O que era um pequeno pedaço de metal surge como uma imagem, cuja presença foi repotencializada pela estranheza. Ocupa, solitariamente, o centro do papel. O olhar fixa o centro. São silhuetas, conformam uma relação ambígua entre a ausência de algo que passou ou índice de uma presença precária. Algumas assemelham-se a formas arquitetônicas básicas, em que a frontalidade vela a espessura do monumento.

Aqui será possívelfazer uma referência aos desenhos de Ester Grispum, em que a existência do espaço define-se como lugar de figuras arquiteturais anunciadas em devaneio da linha gráfica. O monumento, na obra de Grispum, busca sua existência entra a transitoriedade da linha e a sólida implantação dos volumes hieráticos ou arcaicos seres, memórias de uma escritura, como na série “ O arco e a Caverna” (1988). As imagens gráficas de Guita Soifer – negras e graves – também remetem a idéia de uma arquitetura ironicamente monumental, reconduzindo o sentindo do silêncio que paira sobre aquelas formas. A natureza do silêncio transforma-se mudando a própria qualidade dessas formas. Nesse processo de ressignificação, Guita Soifer trabalha sobre as possibilidades expressivas do ato simples. Ela atua como se produzisse o resgate de uma afasia: transformação do mutismo em silêncio.

Algumas gravuras de Guita Soifer são um território econômico em que o resto, como ausência de valor é resgatado. O que nada era recupera uma serventia inicial, que é a de produzir alguma visibilidade. Aparentemente essa seria a última possibilidade desses restos. Os pequenos fragmentos, pequenas peças de metal também encontradas, são dispostos no que se parece com a articulção de um diálogo visual.

Guita Soifer explora a possibilidade de articular uma nova totalidade: o espaço constelares. As linhas diagonais imaginárias de tensão, partindo de um fragmento ao outro, produzem um sentido coesivo para o espaço – tecem o espaço. Simultaneamente, experimenta-se uma rarefação da intervenção gráfica. O valor já não será econômico mas passa a residir na recaptura da diferença, ali onde já nada mais parecia ter qualquer sentindo ou significado. Nesse processo de territorialização, há uma busca do equilíbrio, do encontro do número exato capaz de tensionar e constituir o novo espaço em um presença em si.

Se as ressonâncias da partes resistem ao olhar e constituem uma presença gráfica significante, poderíamos falar agora de uma outra dimensão desses jogos. São espaços constelares líricos. O percurso do olhar é o curso de uma escritura, que, não pertencendo ao campo da palavra, já não é aqui silêncio. Parece se avizinhar de uma outra linguagem expressiva, confirmando a existência de um trânsito de sentidos. É fato que a gravura tem um apelo ao tato. Muitas vezes o olhar háptico percorre os sulcos e as cicatrizes que a matriz grava no papel. No entanto, nessas gravuras de pequenos fragmentos, estaríamos diante de experiências gráficas em que, na tradição de um Klee ou de Kandinski, o signo visual desloca-se para outro sentido e busca a condição de música. O olho escuta, já se disse. O artista russo, em seu livro ”ponto linha plano”, discute as possibilidades expressivas da gravura em metal na constituição de estruturas mentais, menciona ressonâncias de linhas e sonoridades duplas no plano das conexões e correspondências entre arte e música. Se esses fragmentos impregnam-se no papel como pontos de forma variadas, Kandinski pode, então oferecer uma chave que nos ajudaria na compreensão dessas composições de Guita Soifer. Assim, “A sonoridade primeira do ponto é variável segundo suas dimensões e formas”, cabendo à artista a regência de uma coloração relativa.

O estilete da escritura em braile fura o papel da gravura, grava ponto a ponto uma mensagem ao ato e para uma legibilidade que se resolve na ausência da visão. Guita Soifer desloca sua obra para outros territórios sensoriais. A carnalidade dessas gravuras formada pela trama do papel recebe inscrições em braile, como cicatrizes. Essas gravuras de incisão e de texturas, encontram outros limites da legibilidade. É premente a dupla referência aos sentidos e ao ato. De novo devemos tratar aqui o deslocamento do percurso vital para uma condição háptica na obra de Guita Soifer.

A cegueira tem sido um extraordinário mecanismo para a compreensão do estatuto dos limites e da potência do olhar, o ato e a visão foram operados como um jogo dramático em escultores tão distintos como Rodin, Degas e Brancusi, bem antes, o Diderot iluminista, em sua carta sobre os cegos, tratou da educação dos sentidos não tendo feito propriamente uma apologia da cegueira. É conveniente reiterar que como Diderot, alguns artistas lidam com a educação dos sentidos. A potencialidade poética dos limites do olhar povoam a arte brasileira, sendo Cildo Meireles uma matriz com obras como “Espelho Cego” e “Eureka Blindhotland” se confirmarmos a importância do olhar, é necessário qualificar este olhar e compreender a diferença. Para Guita Soifer gravar, mais do que uma ferida na matriz, é um projeto de repotencialização da percepção do olhar e do tato em torno de uma nova legibilidade. Guita Soifer está entre aqueles artistas para os quais fazer construir e pensar se equivalem.

Paulo Herkenhoff

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