Dispostos sobre toda a extensão desta imensa mesa, os trabalhos de Guita Soifer marcam a presença de duas qualidades: a quantidade e a diversidade. Uma nos diz que os muitos são um, já outra afirma que este um são muitos. Cada um dos objetos aqui expostos reclama a natureza de um livro, mas livros imbuídos de naturezas distintas.

O que é um livro? Dito de modo prosaico, tão pertinente aos nossos dias, um livro é um poderoso instrumento de cultura, composto de um aglomerado de folhas de papel amarradas umas às outras, sobre as quais estão impressos signos capazes de conectar diferentes realidades imaginárias, e que, quase invariavelmente, fechado toma a forma de um retângulo vertical e quando aberto o retângulo se espicha horizontalmente. Entretanto, a natureza de um livro também evoca referências distantes da trivialidade. Na tradição judaico-cristã, o próprio universo é figurado como um Livro feito de números e letras. O mais antigo dos textos hebraicos preservados, o Sefer Yezirah, afirma que Deus criou o mundo por intermédio de combinações secretas de dez Sefirot (ou números) e de vinte e duas letras; do Sefirot foram geradas todas as coisas abstratas e das letras: o mundo, o tempo e o corpo humano. O segredo do conhecimento do mundo se encontra, assim, diretamente relacionado à leitura correta desses caracteres e ao domínio de suas combinações. Mediante esse domínio, a ação do Criador pode vir a ser imitada, de modo a recriar diferentes partes desse infinito texto escrito por Deus.

Todo livro guarda em sua forma algo análogo a este colossal Livro primordial. É neles que incessantemente nos empenhamos, em dimensão imaginativa, em dar vida a realidades. Tudo o que pode ser disposto em número, letra ou imagem é passível de aí figurar, de ser reproduzido, de ser recriado. Através de combinações corretas de caracteres e de sua adequada leitura, o distante se faz próximo. Sonhos alheios, experiências e histórias longínquas, conhecimentos diversos se perfilam à nossa frente, convidando-nos para um estreito relacionamento. O que um livro tem de análogo com a forma do universo é a sua natureza de superfície. O mundo é uma extensa superfície que dispõe todo o existente. O livro é uma superfície capaz de abarcar as realidades sígnicas. A pintura, a escultura e o desenho, cada qual a seu modo, se posicionam reclamando esta mesma configuração.

Mas o que vem a ser uma superfície? Segundo a física, uma superfície é uma plataforma que se estende entre realidades distintas e que as apronta em plano igual, de modo a possibilitar ao diverso um relacionamento entre si. Através dessa interação, novos acontecimentos são gerados, novos fatos são constituídos, novas realidades podem vir a nascer. As realidades nascem das infinitas superfícies que incessantemente são geradas no interior desta extensa superfície primordial: o mundo.

Um livro é uma superfície para a linguagem e também uma realidade. O que distingue uma natureza da outra é a presença de uma desenvoltura formal. A realidade tem forma. Faz-se a partir de um sistema de bordas, ou demarcações, armado através do reconhecimento de tudo que pertence a um fenômeno específico e também do que não lhe pertence: uma fronteira construída a partir da presença e da falta. Em contrapartida, uma superfície se apresenta como o livre jogo de possibilidades entre qualidades de realidades aproximadas. Quando estas qualidades se agrupam e se sedimentam de modo que percebo uma configuração própria, as tomo como um fato.

Visto como um fato, o livro tem uma história. Uma história que articula as diversas operações da matemática: adiciona novas possibilidades, multiplica seu âmbito, mas também subtrai elementos e se divide em novos campos. Colado à superfície do mundo, as variações se processam: o livro abandona a forma de um pergaminho e desenvolve sua continuidade a partir da segmentação: páginas, capítulos e seções; renuncia ao apego à necessária oralidade (a leitura e a voz estavam intrinsecamente associadas); ganha sistemas de pontuações; afasta-se da reprodução manual, que ganha contornos técnicos; resigna-se na contração de seu sistema de leitura (Dante afirmava que um livro incide em quatro sistemas de leitura, sendo um literal e três simbólicos) e assim dispensa a interferência da disposição da letra na página ou de seu desenho na configuração do sentido empregado. Em síntese, a história do livro é a variação desses tantos aspectos e de uma sedimentação afeita a proporcionar uma ideia comum. Uma ideia que é aprendida por nós e nos possibilita ter a certeza: isto é um livro. Mais, este é um livro que pertence ao passado; este, um livro de história; este outro, de ficção, etc. Aprendemos também que cada um desses, cada uma das espécies, exige de nós uma forma específica de comportamento. Esta é a dimensão da cultura.

Entretanto, a arte se impõe de modo distinto do universo da cultura. A cultura promove a regra e o exercício da apreensão da regra. A arte ambiciona uma superfície diretamente relacionada à criação. Não se trata de refazer formas ou redispô-las, ou ainda ensinar os caracteres através dos quais o território das formas pode ser melhor apreendido, mas de dar forma ao que ainda está informe, de figurar o que radica no mundo somente como possibilidade. O que a arte almeja é promover superfícies, forjar caracteres e combiná-los de modo que novas realidades possam nascer no interior deste âmbito.

Guita Soifer procura a arte: é gravadora, desenhista e pintora. Aqui mostra seus livros. Livros que não se contentam com uma forma já sedimentada. Desejam mais. Buscam extrapolar os limites que a cultura designou aos seus territórios. Sobre esta imensa mesa uma nova superfície está posta: os artefatos de Guita nascem de relacionamentos que ocorrem entre a forma livro e outros contextos onde a linguagem também se abriga. São livros e também pintura, e escultura e desenho e gravura. A superfície está talhada. Em exposição, cada um dos exemplares reclama ser tomado como realidade. Isto agora depende deles e de nossa disposição de ouvi-los, um a um.

Marco Silveira Mello

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