Nesta mostra estão trabalhos de Guita Soifer de diferentes momentos. Mas não é uma exposição retrospectiva. O esforço é de outra monta. Trata-se de objetivar um modo dessa poética expressar os termos de seu próprio território. Sempre me pareceu que Guita Soifer encontrara na gravura o meio mais propício para suas realizações. Aqui coube rever alguns diagnósticos. É um equívoco pensar que as razões desse fato advêm de uma ordem de especialização. Antes essa ocorrência se efetua em razão de que a maneira de suas ações manifesta estreita afinidade com a estrutura dessa forma de linguagem. A gravura é um ofício associado à multiplicação e as ações da artista buscam insaciavelmente, obsessivamente, a multiplicidade.

Mas, se a sua obsessão pela abundância estende uma correspondência entre suas ações e a “forma” da gravura, também é responsável por promover distanciamentos. É justamente por ter em vista a variedade que Guita se desapega da multiplicação que a gravura proporciona. A gravura perpetra vários do que é um e Guita faz preponderantemente monotipias. Faz da gravura um somente, mas que se abre em séries extensas, dando a ver que poderiam ser quase incontáveis.

A compulsão pela ordem dos muitos igualmente açoda capacidades expansivas, levando que a artista extrapole os limites desse campo, em princípio mais favorável, e se arrisque em diferentes territórios da linguagem. Enfim, é por perseguir a pluralidade que ela igualmente se dispõe à pintura, à fotografia e aos livros de arte.

Nos quadros dessa superfície extensiva, que reclama vários, a poética vai pulular de lá para cá e daqui para ali, agenciando obras em distintas linguagens. Não é de estranhar que os entes de distintos territórios encontrem disposições e até feições em comum. Afinal, desenvolvimentos promovidos em dado continente avançam em outro para mais tarde regressarem desdobrados, prontos a novos exercícios, aptos a realização de novas séries de variações.

Contudo, a obra de Guita Soifer não é movida unicamente por impulsos expansivos: a esses humores, convivem poderosas travas. Se as ações se lançam à frente ambicionando a variedade, elas se mostram sempre agarradas a um ambiente nuclear. Tudo ocorre como se os seus esforços nunca se desprendessem da gravidade do um. Como se a falta dessa presença tolhesse todo o sentido da ação. É por essa razão que as obras buscam orbitar séries, que a gravura apronta uma espacialidade capaz de causar um centro, que a pintura organiza uma miríade de pinceladas tendendo ao retraimento e que a pujante variedade ocorrida em seus livros se faça no interior de uma forma cuja natureza é o recolhimento.

O um e os muitos são os dois termos que esquadrinham o espaço poético de Guita Soifer. Quando um se encontra junto ao outro em uma mesma obra não é de forma alguma um abrandamento da disposição e sim a realização de um paradoxo. Nunca é demais dizer: não existe arte sem vergar a língua ao paradoxo.

Marco Silveira Mello

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