Oferenda, nascente, fruto

O lugar simbólico que a memória ocupa em nossa época, e que há tempos deixou de ser seguro, patrimonial, é muito mais, como outras coisas, espaço de litígio, negociação; e, assim como pode chegar a ser viva arqueologia contemporânea, pode ser mero remake em muita produção cultural. Oferenda, de Guita Soifer, fala disso, dessa fragilidade quase não-lugar, e ao mesmo tempo é uma doação em si, também um pedido. Porque é uma instalação in situ que tem sua única matriz num canto da sala, numa parede do fundo utilizada como nascente, enquanto na outra há uma peça só, espelhada, já não como fruto, senão reflexo, semente de antes.

Oferenda jorra assim seus múltipos liames (fios de resina plástica de dimensões e comprimentos diferentes) como uma fonte, manancial que invade objetos, coisas semi-identificáveis em aluvião, velando sua própria visualidade, apagando definições em parte para realçar nuances. De fato, nesta espécie de caverna imagética onde as sombras adquirem valor, há uma série de objetualidade indefinida, uma série de colunas, candelabros, velas, às vezes semifiguras querendo ser adivinhadas, cuja configuração escultórica tem ecos clássicos e modernos (de Aleijadinho e de Giacometti); em suma, um semblante arcaico e contemporâneo que não esconde certa aura religiosa, espiritual – até pelas cores escolhidas –, numa materialidade informe que produz desassossego, tanto pelo contato com a terra quanto com uma “humanidade precária” (conforme Edward Said) na época da incerteza.

A cascata que nasce da parede e ocupa mais da metade da sala expositiva impõe sua presença, e até certo ar dramático se lembramos episódios recentes, desastres-crimes. Trata-se sempre de uma obra-situação única, uma peça coletiva formada por fragmentos dissímeis que deriva em um site specific que lança surrealisticamente seus elementos como uma aparição, uma assombração imagética.

Se Borges confessava que só uma coisa não existia, o esquecimento, Oferenda dedica a sua visualidade expansiva, em crescendo, seu chegar em ondas, camadas, até o limite de nossa presença. Nós nos aproximamos até seu limiar inquietante, qual linha de fronteira. Por outro lado, se a memória é a vida do perdido, Oferenda de Guita Soifer é uma obra de resgate, funciona como um alimento, um antídoto para a desmemória e o esquecimento. Recupera aquelas raízes se formando a toda hora com as que convivemos, e que, como diria Agamben, em relação a tempos passados, não deixam de ser incorporadas para saber a verdadeira cor do presente.

Adolfo Montejo Navas,
fevereiro de 2019