Por: Nilza Procopiak … Continue Reading >Sala de Exposições Guilherme Litran Pelotas // RS // Junho de 1991

A profunda empatia existente entre um artista e o objeto do seu trabalho nem sempre se revela em sua obra.

No entanto, é exatamente o registro desta sensibilidade, o que sinto em relação à Guita Soifer e sua pintura.

Sua recente tela contém algo da antiga alquimia – da coisa conseguia não somente pelo repetir, mas também calcada no procedimento individual, que beira os limites da paciência, sendo obtida por meio de uma parcela do querer/poder/acreditar.
E o que surge, aparece – para além da forma – também como resultado da depuração alcançada a nível pessoal pela própria artista.

O ato criativo ocorre deste modo, nos dois sentidos – da obra como pintura e da obra como análise de uma realidade presente, mas não obrigatoriamente visível. Por isso, usando como que um aparelho ótico que aprofunde as visões, a artista – como meio- torna possível uma outra versão da realidade, fundamentada no mais verdadeiro do seu mundo íntimo.

Vinda do processo da gravura – o qual exige rotina e método – Guita tira partida da estratégia de trabalhar em diversas telas ao mesmo tempo, para dinamizar sua pintura e contornar o que muito artista chamaria de inspiração.

Já que o ato de pintar lhe está agora, intrinsecamente assimilado e absorvido – numa segunda natureza inerente à sua pessoa – pintar desta maneira se mostra, sem dúvida, um excelente crisol que filtra os modos conscientes do exercício artístico, fazendo aflorar o tipo de expressão que o surrealismo chamou de criatividade automática.

Ao passar de uma tela à outra, a artista desliga-se do cuidado particular relativo a cada pintura “per si”, e cria, em contrapartida, a atmosfera propícia para fluir das formas e sensações que permanecem tal qual uma característica unificante, presentificada na totalidade das obras, e não individuando e detalhando uma só tela em especial.

A obra de Guita Soifer não tem uma planificação reflexiva prévia, a nível de projeto compositivo. Assim, a arte abstrata informal que tem lugar em suas pinturas, desdenha as regras rígidas da composição e exalta o ritmo espontâneo da representação interior, numa experiência plástico-sensorial de uma realidade aquém.

Entretanto, ao nascer ao longo do tempo e no acúmulo de camadas pictóricas que se sobrepõem, sendo acrescidas aqui de alguns toques, ali de modificações cromáticas, depara-se aí sim, com a intervenção consciente da autora.

A complementar, via conhecimento, que pode ser até intuitivo, (entenda-se intuição no conceito junguiano: um processo da consciência) ou então, racionalmente, sua obra.

Irrompem, por conseguinte, numa certa ordem, os registros dos impulsos, dos estímulos, dos sentimentos, da tinta que escorre e permanece, os quais figuram, através do acaso e mesmo pela lei da gravidade, suas ligações com o real.

Em razão de que, os gestos ficam transpostos na antologia que traduz o perfil de uma busca – concretizada nas pinturas que respiram e pulsam levemente. E que mantém esta qualidade de vibração justamente por terem sido retiradas e fixadas – em forma de coloridos padrões dinâmicos – no exato momento no qual se sobressaíam do fluxo constante da transformação e mudança que caracteriza o universo matérico.

E agora a sensibilidade da artista atua, a ponto de definir com precisão, onde deve parar – fato que parece ser muito fácil, mas que se trata de algo infinitamente difícil de discernir.

E continua incisiva, nos contornos de caligrafia oriental que emergem – vestígios de lembranças – reacendendo tradições atávicas, como testemunho existencial, nítido contraponto à fluidez do restante da superfície pintada.

Num diálogo artista-obra acontece a reescrita da vida, que se manifesta como uma análise pictórica.

Análise semelhante a um espelho virtual que reflete o presente, o passado, o futuro, ao mesmo tempo em que se aprofunda nos interstícios da composição da matéria.

Nesta dualidade que congrega o aspecto quase intangível de mônadas (“segundo Leibniz:”…). mônadas são os verdadeiros átomos da natureza… com o modo direto detalhado em pormenores de gestual caligráfico, a artista supera inclusive, o preconceito contemporâneo do belo na obra de arte. Os quadros de Guita atingem facilmente aquele patamar no qual se vê a dosagem apropriada da invenção formal e do agradável ao olhar.

Repetindo do livro “O Tao da Física” de Fritjof Capra: “As formas artísticas orientais são modos de meditação, meios de auto-realização através do modo intuitivo da consciência”, e não esquecendo o significado de Tao = Caminho, vejo o avançar da arte de Guita. Visível também no modo intuitivo de analisar a matéria, numa descida à própria constituição da matéria – na revelação plástica de um segredo da natureza. Porque, ao atingir a imaterialidade da pintura, por meio do fugaz, do fluídico, do etéreo, a artista consolida uma posição paradoxal – o lado mais imaterial possível demonstra ser, ao contrário do esperado, total e simultaneamente, o lado mais concreto e físico de uma realidade reconhecível nas moléculas, nos átomos, nas células – no micro-cosmos enfim.
E lá onde se pensou existir a imobilidade, descobre-se da natureza, o que ela tem de maior atividade – seus movimentos celulares, suas órbitas atômicas.

Deste modo, ao captar a essência fugidia da matéria que é, ao mesmo tempo a fundamentação básica da natureza, da vida, as paisagens que Guita apresenta, constituem na verdade, no micro-cosmos – parte do agora, de nós mesmos e, no macro-cosmos – parte de nosso universo, de nosso futuro.

Nilza Procopiak

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *