Ao fundo, na última parede da terceira e última sala que compões o espaço expositivo, um grande retângulo imerso no vermelho. Trata-se de duzentas e oitenta telas pequenas, dez centímetros por dez, arranjadas numa ordem regular de modo a juntas perfazerem um retângulo de um metro e cinqüenta e oito de altura por dois e setenta e oito de largura. Já a distância nota-se que o conjunto possuo lacunas. De perto constata-se que em cada um dos dezenove espaços vazios existe um prego. Presença que anuncia uma ausência: uma tela que foi retirada ou que ainda está para ser colocada. Em qualquer um dos casos uma incompletude. Como se o conjunto topasse com a sua impossibilidade, um circulo que não se fecha, perpetuamente condenado a não ser. Algo em potência mas que não acontece. Mantém-se no limiar, embora nos conta cada uma das partes meticulosamente trabalhadas, longo fosse o caminho até ali percorrido. Um projeto que será finalizado, talvez, pelo olhar e imaginação daqueles que o contemplam. Situação complexa posto que aquele que se detiver diante da obra, aquele que se deixar levar ao sabor de cada uma das partes, por cada uma das pequenas telas, analisando-as uma a uma ao mesmo tempo em que o olhar, como é inevitável nesses casos, vai se espraiando pelas telas adjacentes, preencherá os espaços vazios como extensão lógica daquilo que está vendo como também daquilo que já traz dentro de si. Enfim, completará o conjunto a partir da sua própria experiência e memória. Sob este aspecto a obra, como de resto tudo que nos é dado a contemplar, será infinita ao mesmo tempo em se alimentará do próprio espectador.

O tempo sempre foi a matéria de Guita Soifer. O tempo da vida que também é o tempo da morte; o tempo que subjuga indistintamente todos os seres e coisas, mas que também se encarna no modo como os seres e coisas se subjulgam mutuamente. Nesse sentido a presente exposição de Guita Soifer é e não é uma exposição autobiográfica. Não é porque sua pretensão leva-a meditar sobre um amplo conjunto de acontecimentos, questões no geral transcendentes e que concernem a qualquer um que se coloque diante delas. É autobiográfica porque indubitavelmente o halo silencioso e freqüentemente sombrio que se desprende desse conjunto de trabalhos justifica-se também pelo fato da artista ser judia, pertencente a uma família que foi arrancada da Europa, e que por uma série de coincidências fortuitas terminou se fixando numa cidade situada ao sul do Brasil. Poderia ser diferente? Será possível para alguém suprimir um passado familiar tão próximo e impresso em tamanha tragédia? Seja como for não me parece que a artista faça indagações ou referências diretas a isso. A sutileza, o discurso oblíquo revela-se uma arma eficaz. Ainda assim, como já foi dito, se sua singular meditação sobre o tempo funciona como uma escada rumo ao universo, essa escada, por sua natureza mesma, necessita de um chão onde ela possa se apoiar.

Desde suas gravuras despojadas, de que nesta exposição ela apresenta uma expressiva série de seis, até esse surpreendentemente diverso conjunto de trabalho, a artista parece debruçar-se sobre o tempo, experimentá-lo em algumas de suas manifestações, perceber passivamente suas peculiaridades, como quem deixa o vento soprar o próprio rosto desalinhando o cabelo, ou, ao contrário, como quem se propõe a açulá-lo, obrigando-o a mover-se pela ação do gesto que sulca uma matriz ou pelo endurecimento da parafina líquida, cuja viscosidade vai desaparecendo a medida em que a matéria trava contato com a temperatura ambiente ou ainda como quem se apropria de um objeto qualquer um par de óculos, uma colcha, uma mala e sabe, e conta com o fato, de que esse mesmo objeto é inseparável de sua função Cada objeto é indissociável de seu uso ordinário, dos óculos que servem como apoio para a vista,
pretensamente diminuindo o abismo que nos separa do mundo; da colcha que cobre os corpos para que melhor navegue no sono; da mala, casa portátil, com qual se transporta as coisas que não se quer abandonar, coisas tão indispensáveis que por isso viajam juntas a nós, rente ao corpo, levadas pela alça abraçada pelos dedos.

Aos mais distraídos as gravuras de Guita Soifer, expressão na qual ela construiu sua notável carreira, talvez não prenunciassem a artista plural, autora de uma obra variada, que hoje trafega com naturalidade entre a pintura e a escultura, entre o objeto apropriado e o livro, entre o plano e a instalação. Mas considerando que o seu problema, o nervo da sua preocupação, é o tempo, e não este ou aquele suporte expressivo, este transbordamento é menos uma surpresa do que um corolário natural de suas indagações. O curioso, por certo, é que somente agora ele tenha ocorrido, quando a artista já se havia consolidado como gravadora. Mas, pesado os termos, trata-se de uma curiosidade banal, que deriva do gosto que os historiadores de arte possuem pelo recorrente, por aquilo que, por ser estável, melhor se adéqua aos sistemas de classificação.

Talvez porque pertençam ao veio que a artista mais explorou, as gravuras dessa exposição servem como chave explicativa para que se possa perceber as questões essenciais que a permeiam. Nelas planos pretos de contornos bem escondidos articulam-se entre si para melhor desafiar o branco do papel. Em alguns casos parecem apresentar vistas chapadas de grandes construções, como esses prédios que por efeito de uma luz determina e de um ângulo
de visão muito particular, abandonam sua volumetria convertendo-se em sombras grandes. Vendo-as de perto nota-se que as formas pretas de algumas delas acomodam-se dentro de sutis baixos relevos pela compreensão do papel, e que essas depressões não coincidem com as bordas dessas formas, ao contrário, as ultrapassam, como se ao esforço que confeccionou cada mancha houvesse um outro anterior que lhe tivesse aberto caminho, como essas
pequenas covas que se abrem na terra para que a sementes sejam depositadas. Remetem diretamente a outros trabalhos, outras gravuras pertencentes a séries anteriores, nas quais as superfície integralmente branca do papel espesso era interrompida aqui e ali por conjunto de letras ou letras isoladas, constelações despojadas, discursos fragmentados e desconexos, como expressão em estado larvar, ainda germinando, e que em algum momento no futuro
terminarão por aflorar.

As gravuras apresentadas nessas exposição trazem uma outra a versão da porfia entre o silencio do branco e toda a intensidade expressiva do preto. As zonas definidas por um e outro travam-se mutuamente como se houvessem chegado a uma estabilidade mínima. Afora a equivalência entre elas, o que por si só ativa o quadrilátero que as contém, tornando-a uma zona de tensão, as formas pretas, como que por efeito do tempo demandado na sua contemplação, parecem se desprender repentinamente do plano horizontal para erguerem – se no ar.

As outras obras apresentadas trazem essa discussão aberta num espectro ainda mais abrangente. Já na primeira sala as colchas informalmente penduradas nas paredes faz com que oscilemos entre a memória do nosso convívio doméstico com esse objeto e o fato

deles estarem ali mutilados e conspurcados. Trata-se de duas peças onde uma remete à outra. Duas peças de tecido que, como todas as colchas, um dia cumpriram a tarefa de cobrir a cama, o porto para onde se regressa todas as noites. Agora eles estão borrados por ferrugem, macerados pela pele hostil do ferro, que neles, deixou a nódoa que lhes violentou em definitivo a docilidade tátil do tecido, sua candura. Uma das colchas teve arrancada de seu centro um losango. A regularidade da forma sugere a premeditação do gesto violento. O pedaço ausente, por sua vez foi costurados na superfície da outra colcha. Aí está lógica implacável do jogo. Pelas variadas formas de contato, do amigável ao tirânico, de resto muito mais freqüente , as coisas, ao longo do tempo, contagiam-se umas as outras, alteram-se irremediavelmente, perdem sua pureza.

O que essas obras insistem em nos alertar é que o tempo não existe per se. Existe nas coisas. E como são infinitas as coisas, infinitas são as modalidades de tempo que as habitam. O denominador comum a todos eles é que aquilo que eles destravam em cada matéria e objeto é um impulso que os levará ao confronto e modificação, a alteração de sua feição e essências originais rumo à transformação.

A apresentação mais tocante desse problema e que se conecta diretamente à parábola das colchas está na entrada da terceira sala, numa pequena mala em cujo interior , enovelado e transbordante, vê-se uma película fílmica impressa em papel. Nela ocorre a sucessão progressiva de uma mesma imagem: uma mão espalmada que quadro a quadro vai sendo riscada por um instrumento que não se vê. Tal como nos é apresentada a mão nos leva a pensar em aceno ou desespero; em ambos os casos atua como um índice de fragilidade, ainda mais acentuado por ser alvo de uma incisão crescente e que ademais é fabricada por um agente invisível. Às linhas das mãos, que as mais variadas culturas afirmam ser as linhas impressas dos destinos passados e dos passos que ainda serão percorridos, opõem-se outras linhas, riscos tortuosos e doloridos. Que caminhos são esses traçados a seco na pele e para o quais não parece haver defesa?

Nesta mesma sala, fixado em uma parede lateral, um mosaico composto por 36 fotos, 36 variações, repetições e inversões de um mesmo motivo: a artista vista de costas. Variando de uma tomada à distancia onde se a registra da cintura para cima, até uma visão focada em sua nuca e cabeça, o resultado coloca o espectador diante de alguém que se distancia dele. Alguém que destemidamente se apresenta em pose vulnerável, o que por outro lado amplia sua condição de enigma, ao que além de não dar a conhecer sua face, contempla um lugar para nós inatingível. Um lugar onde, de acordo com as cabeças fotografadas invertidas, não valem as leis do direito e esquerdo, do acima e do abaixo, as balizas que organizam nossos movimentos pelo mundo, este nosso mundo. Será o futuro? E se for que é sobra para nós, espectadores que ela tão ciosamente cuida em evitar? Estaremos condenados ao passado? Quedamo-nos fincados no agora enquanto ela escoa rumo ao horizonte?

A Convergência dos tempos encontra uma versão ainda mais complexa nos vários livros dispostos sobre a mesa logo à entrada da segunda sala como também em duas estantes situadas à sua saída. Linhas e letras vão se sucedendo na razão em que os folheamos.

Linhas e letras aplicadas sobre superfícies coloridas. Há, portanto, no seio dessa exposição tão silenciosa, um momento de exaltação. Mas, embora alegre, trata-se de uma melodia entoada a meia voz. AS cores vão imantando o ambiente com seu calor, com o ritmo compassado com que viramos a página, uma maneira de saborear o tempo, posto que o livro é um objeto que se frui necessariamente devagar. Cada página é em si uma obra e aí percebe-se o quanto esses livros são um campo de experiências autônomas ou alvo da transposição de experiências obtidas em outros suporte. Aqui o emaranhado rítmico das linhas assim como as constelações de letras impressas em papéis translúcidos entrelaçam-se como fronteiras de suas possibilidade de linguagem. As linhas comportam-se como se quisessem abandonar o estado caótico, mero sismógrafo da subjetividade, para atingir a esfera da significação. De outro lado as letras, cansadas de serem submetidas à ordem das frases, ao jugo do idioma, sonham outras configurações, abandonam a horizontalmente em que vivem, uma ao lado da outra, para flutuarem para lá e para cá, como certas fotografias astronômicas que retratam explosões estelares.

Nessa mesma segunda sala encotram0se ainda doze objetos arranjados em dois grupos de seis mesas. Deles distingue-se alguns grupos: há aqueles acondicionados em caixas de jóias, acomodados sobre tecidos delicados como seda e cetim. No entanto não passam de objetos triviais o que contrasta com o apuro com que são tratados: uma velha aldabra daquelas que as antiga casas traziam à porta de entrada para que o visitante se fizesse anunciar. Igualmente gastas “borboletas”, pequenas aletas que eram usadas nos batentes das janelas de folhas verticais. Além destes, chamam a atenção outros objetos indiscerníveis, sempre gastos quando não enferrujados, depositados em recipientes de ferro e vidro. O denominador comum a todos eles é que aparentam ser despojos de um outro tempo, cacos de vidas desaparecidas, vestígio de padrões sociais e ritos domésticos, capazes de evocar as visitas que percutiam as portas das casas ou seus moradores que levantavam a janela para que ar entrassem por ela ao mesmo tempo em que apoiavam os cotovelos na contemplação enlevada do movimento da rua e da paisagem. E é por isso, porque alude a um tempo que mercê ser conservado, que não deve ser apagado como as demais coisas as quais se integravam, sob o risco de que um pouco de nós sejamos apagados também, é que eles são tratados como peças de um relicário.

Uma outra ordem de objetos lida com as palavras. Neles a artista faz uso de letras pré-fabricadas: “letraset” ou letras – máscaras, recortadas em pequenas chapas de metal e obtidas fixando-as sobre um suporte qualquer e preenchendo-se seus vazios com tinta. A opção contrária à caligrafia coloca o problema da sobrevivência da expressão pessoal diante da força dos vários discursos enunciados pelo poder, a forçosa obediência às palavras e sentidos que nos são impostos. Dentro de uma caixa, mesmo as letras metálicas abandonam sua impessoalidade na medida em que são vitalizadas por uma pele espessa – a parafina. Aqui a letra ganha carne. Homologamente ganha vida o pronome pessoal, intransferível, “EU”, gravado em “letraset” preta que flutua sobre uma película branca imaculada, líquido seminal ou placenta. Obra de infinita delicadeza, com ela Guita Soifer, ao passo em que corajosamente se desvela, mostra-nos com sua poética que possivelmente a submersão do signo no tempo fará germinar um outro ser dentro do ser.

Agnaldo Farias
Curador e Professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo da EESC/ USP

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